Cavaquinho

Cavaquinho

O cavaquinho é um cordofone popular de pequenas dimensões, do tipo da viola de tampos chatos – e portanto da família das guitarras europeias – caixa de duplo bojo e pequeno enfranque, e de quatro cordas, de tripa ou metálicas – de «arame» (ou seja aço) -, conforme os gostos, presas, nas formas tradicionais, em cima, a cravelhas de madeira dorsais, e, em baixo, no cavalete colado a meio do bojo inferior do tampo, por um sistema que também se usa na viola. Além deste nome, encontramos ainda, para o mesmo instrumento ou outros com ele relacionados, as designações de machinho, machim, machete (que parece ser uma palavra, caída em desuso, e subsistente nas ilhas e no Brasil), manchete ou marchete, braguinha ou braguinho, cavaco, etc., que a seguir analisaremos.

Dentro da categoria geral com aquelas características, existem actualmente em Portugal continental dois tipos de cavaquinhos, que correspondem a outras tantas áreas – o tipo minhoto e o tipo de Lisboa.

É sem dúvida fundamentalmente no Minho que, hoje, o cavaquinho aparece como espécie tipicamente popular, ligada às formas essenciais da música característica dessa Província. O cavaquinho minhoto tem a escala rasa com o tampo, como a viola, e doze trastos; a boca da caixa é, no caso mais corrente, de «raia», por vezes com recortes para baixo; mas aparecem também cavaquinhos de boca redonda. As dimensões do instrumento diferem pouco de caso para caso: num exemplar comum, elas são de 52 cm de comprimento total, dos quais 12 para a cabeça, 17 para o braço e 23 para a caixa; a largura do bojo maior é de 15 cm, e a do menor, 11; a parte vibrante das cordas, da pestana ao cavalete, mede 33 cm. A altura da caixa é menos constante: regula por 5 cm na generalidade dos casos, mas aparecem com frequência cavaquinhos muito baixos, que têm um som mais gritante (e a que, em terras de Basto e noutras regiões minhotas, chamam machinhos). As madeiras variam conforme a qualidade do instrumento: os melhores tampos são em pinho de Flandres; mais correntemente, eles são em tília ou choupo; e as ilhargas e o fundo são em tília, nogueira ou cerejeira. Em regra, os tampos são de uma folha única daquelas madeiras que apontamos, mas, não raro, fazem-se cavaquinhos em que a metade superior do tampo é em pau-preto; as ilhargas e o fundo são também, muitas vezes, nesta madeira. Braço, cabeça ou cravelhal são de amieiro; a cabeça ou cravelhal é geralmente muito recortada, segundo moldes variados e característicos. Rebordos e boca são sempre avivados e enriquecidos com frisos decorativos.

Os cavaletes são quási sempre em pau-preto; e já o Regimento para o ofício de violeiro, de Guimarães, de 1719, os indica assim para as violas.

Os cavaquinhos minhotos são construídos por uma indústria localizada outrora, sobretudo, em Guimarães e Braga, e, hoje no Porto e arredores de Braga. Em Guimarães, já no século XVII se construíram estes instrumentos, e o Regimento de 1719 menciona, entre as espécies então fabricadas, machinhos de quatro e, outros, de cinco cordas.

O cavaquinho é um dos instrumentos favoritos e mais populares das rusgas minhotas, e, como estas e como o género musical que lhe é específico, tem carácter exclusiva e acentuadamente lúdico e festivo, com radical exclusão de usos cerimoniais ou austeros. Não há ainda muitas dezenas de anos, rara era a casa rural do concelho de Guimarães onde ele não existisse e não fosse tocado. Pode-se usar sozinho, como instrumento harmónico, para acompanhamento do canto; mais frequentemente, porém, aparece com a viola, e muitas vezes ainda com outros instrumentos – nomeadamente o violão, a guitarra, a rabeca, o banjolim e a harmónica ou acordeão, e mais os percutivos, tambor, ferrinhos e reco-recos – próprios desses conjuntos festivos. Em terras de Basto e de Amarante faz-se uma distinção muito nítida entre o instrumental do tipo da rusga, para as canas-verdes e malhões, que compreende o cavaquinho, violão, hoje harmónicas e acordeãos, bombo e ferrinhos, e o do tipo da chula ou vareira, que compreende a rabeca (e hoje, em vez dela, por vezes, a harmónica) violas (uma alta em tom de guitarra, e outra baixa), violões assurdinados no sexto ou sétimo ponto, bombo e ferrinhos, mas não cavaquinhos. Vê-se assim que, na região, o cavaquinho alterna com a rabeca chuleira as funções de instrumento agudo, conforme os casos.

O cavaquinho geralmente toca-se de rasgado, com os quatro dedos menores da mão direita, ou apenas com o polegar e o indicador, como instrumento harmónico; mas um bom tocador, com os dedos menores da mão esquerda sobre as cordas agudas, desenha aí a parte cantante que se destaca sobre o rasgado, ao mesmo tempo que as cordas graves fazem o acompanhante em acordes. Ele tem um grande número de afinações, que, como sucede com a viola, variam conforme as terras, as formas musicais e até os tocadores; geralmente, para tocar em conjunto, o cavaquinho afina pela viola; a corda mais aguda põe-se na máxima altura aguda possível. A afinação natural parece ser ré-sol-si-ré (do grave para o agudo), mas usa-se também sol-sol-si-ré (ou lá-lá-dó sustenido-mi, do grave para o agudo). Certos tocadores de Braga usam porém, além destas, outras afinações, próprias de certas formas, em que a corda mais aguda (ré) é ora a primeira ora a terceira: a afinação para o varejamento (com a primeira mais aguda), que corresponde a sol-sol-si-ré, atrás indicada; a afinação para malhão e vira, na «moda velha» mais antiga (sol-ré-mi-lá, também com a primeira mais aguda); em Barcelos, preferem sol-dó-mi-lá (afinação da «Maia»); outras afinações de malhão e vira, e outras ainda com a terceira mais aguda; etc. Hoje usa-se o cavaquinho (como de resto outros instrumentos das rusgas) também para o fado, com afinação correspondente, e igualmente a primeira mais aguda.

A origem do cavaquinho é duvidosa. Gonçalo Sampaio, que explica as sobrevivências de modos arcaicos helénicos, que ele próprio nota na música minhota, à luz de conjecturais influências gregas (ou ligures) sobre os primitivos calaicos daquela Província, acentua, sem mais consistência do que isso, a relação entre o cavaquinho e os tetracórdios e sistema helénicos, e é de opinião que ele, com a viola, veio para Braga por intermédio dos biscaínhos, sem explicitar nem dizer as razões desta opinião; de facto, há em Espanha um instrumento semelhante ao cavaquinho, da família das guitarras – o requinto – de quatro cordas, braço raso com o tampo e dez tratos, que afina, do grave para o agudo, ré-lá-dó sustenido-mi.

Jorge Dias parece também considerá-lo vindo de Espanha, onde se encontra, em termos idênticos, a guitarra, guitarrón ou guitarrico, como o chitarrino italiano; e acrescenta: «sem poder precisar a data da introdução, temos que reconhecer que o cavaquinho encontrou no Minho um acolhimento invulgar, como consequência da predisposição do temperamento musical do povo pelas canções vivas e alegres e pelas danças movimentadas… O cavaquinho, como instrumento de ritmo e harmonia, com o seu tom vibrante e saltitante, é, como poucos, próprio para acompanhar viras, chulas, malhões, canas-verdes, verdegares, prins». Além disso, é no Minho notório o gosto pelas vozes femininas sobreagudas e por vezes mesmo estridentes, que se casam bem com a tonalidade do cavaquinho.

Cavaquinho - Portugal / Ukulele - Hawaii / Cavaquinho - Brasil

O cavaquinho, de tipo minhoto, com escala rasa com o tampo e doze trastes, ainda em fins do século passado era bastante frequente na região de Coimbra, figurando, ao lado da viola, nas mãos do povo e, nomeadamente, nos festejos do S. João, nas fogueiras da cidade, juntos com a guitarra, pandeiro e ferrinhos, e nas serenatas da Academia, com largas referências, sob o nome de machinho, na Macarronea. Há poucos decénios, ele ainda se via nessas ocasiões, mas então já em casos raros, e sobretudo tocado por estudantes minhotos. O cavaquinho de Coimbra afinava, de acordo com a viola da região, ré-sol-si-mi (do grave para o agudo); um exemplar da autoria de António dos Santos – outro antigo violeiro famoso da cidade, na Rua Direita -, e que se encontra no Museu Etnográfico da cidade, mede 50 cm de comprimento total, sendo 9,5 de cabeça, 17 de braço e 23,5 de caixa (com 23,5 da pestana ao cavalete); o bojo superior tem 10,5 de largura, e o inferior 13,5; a cinta tem 7,8; a altura da caixa é de 3 cm em cima, e de 3,4 em baixo. Ele parece pois ser ali uma espécie local, que porém se extinguiu do mesmo modo que a viola, suplantados pela guitarra. E, de facto, o exemplar de António dos Santos, dessa época, atesta não só o seu uso mas mesmo o fabrico regional.

O cavaquinho de Lisboa, semelhante ao minhoto pelo seu aspecto geral, dimensões (um pouco mais curto de braço e mais comprido de caixa, que também é um pouco mais larga do que nos modelos minhotos; no cavaquinho do Sul, como a escala vem abaixo até junto à boca, essa mede mais cerca de 5 cm do que nos nortenhos) e tipo de encordoamento, difere contudo essencialmente deste pela escala, que é em ressalto, elevada em relação ao tampo, pelo número de trastes, que são dezassete e vêm até à boca, como no violão e na guitarra portuguesa em todos os demais cordofones de atadilho da família dos banjolins a boca é sempre redonda. O cavalete é de um tipo diferente do dos cavaquinhos minhotos, uma espessa régua linear com um rasgo horizontal escavado a meio, onde a corda prende por um nó corredio depois de atravessar, como nos outros, quatro pequenos sulcos verticais, entre o tampo e a metade inferior do cavalete. Ele parece aí ser mais um instrumento de tuna, de uso urbano e sobretudo burguês que, em meados do século XIX, os mestres de dança da cidade utilizavam nas suas lições, e que era às vezes tocado pelas senhoras; como tal, toca-se então pontiado, com plectro – a «palheta» —, como os instrumentos desse género do tipo dos banjolins, geralmente fazendo tremolo sobre cada corda com a «palheta».

No Algarve, conhece-se igualmente o cavaquinho como instrumento de tuna – «a solo ou com bandolins, violas (violões), guitarras e outros instrumentos» -, de uso como em Lisboa, urbano popular ou burguês, para estudantinas, serenatas, etc.

Na ilha da Madeira existe também o correspondente destes cordofones, com os nomes de braguinha, braga, machete, machete de braga ou cavaquinho. O braguinha tem as mesmas dimensões e número de cordas dos cavaquinhos continentais, a mesma forma e característica do cavaquinho de Lisboa: escala elevada sobre o tampo, dezassete trastos, boca redonda; o encordoamento parece ser de tripa, mas o povo substitui geralmente a primeira corda por fio de aço cru; a sua afinação é, do grave para o agudo, ré-sol-si-ré.

Gonçalo Sampaio acentua a distinção entre os instrumentos minhoto e madeirense, ou machete, que conhece apenas como instrumento solista e, como vimos, com características diferentes daquele; Carlos Santos considera-o mesmo de invenção insular, explicando o seu nome, de acordo com o autor do Elicidário Madeirense, pelo facto de o instrumento ser usado por gente que vestia bragas, antigo trajo do camponês ilhéu. Mas esta opinião parece ignorar o instrumento continental, do qual, a despeito das diferenças apontadas, não podemos deixar de aproximar a forma madeirense. De resto, outros autores madeirenses, como Eduardo C. N. Pereira, notando embora certas particularidades do braguinha, como a sua afinação pela viola, inclinam-se decididamente pela hipótese da origem continental do braguinha ou machete madeirense. E notamos a designação de machinho que aparece em algumas terras do Baixo Minho e de Basto, e já no Regimento de 1719 referente a Guimarães.

Na realidade, o braguinha madeirense, sob o ponto de vista do seu contexto social, apresenta-se, por um lado, como instrumento de nítido carácter popular, próprio do «vilão», rítmico e harmónico, para acompanhamento, tocando-se então rasgado; por outro, instrumento urbano, citadino e burguês, de tuna, melódico e cantante – de facto o único instrumento cantante madeirense -, tocando-se pontiado, com palheta ou, preferentemente, com a unha do polegar direito ao geito de plectro, alternando com rufos ou acordes dados com os dedos anelar, médio, e indicador (o que toma bastante difícil a execução); e tendo como tal figurado em conjuntos de que faziam parte pessoas da maior representação social da cidade do Funchal, com conhecimentos musicais, e ao serviço de um repertório de tipo erudito, em arranjos mais ou menos adequados. Morfologicamente idênticos, o braguinha rural é extremamente rústico e pobre, enquanto o burguês e citadino é geralmente de uma feitura muito esmerada, em madeiras de luxo, com embutidos, etc.

O Dicionário Musical, de Ernesto Vieira, e também o Grove’s Dictionary of Music, mencionam o cavaquinho nos Açores. De facto, na ilha do Pico, encontramos um excelente informador, a despeito da sua idade avançada – o P. Joaquim Rosa, que em 1963 contava 90 anos -, que, em criança, usara o cavaquinho na Prainha do Norte, sua aldeia natal, na mesma ilha; e temos notícia da sua existência na vizinha ilha do Faial, nomeadamente na aldeia dos

Flamengos, perto da Horta. Na ilha Terceira constróem-se hoje também cavaquinhos, mas apenas por encomenda do pessoal americano do aeroporto das Lajes, ou destinados a terceirenses que habitam a América do Norte, e rotulados de «ukulele».

O cavaquinho existe também no Brasil (onde goza de uma popularidade maior do que entre nós), figurando em todos os conjuntos regionais, de choros, emboladas, bailes pastoris, sambas, ranchos, chulas, bumbas-meu-boi, cheganças de marujos, cateretês, etc., ao lado da viola, violão, bandolim, clarinete, pandeiro, rabecas, guitarras, flautas, oficleides, requesreques, puita, canzá e outros, conforme os casos, com carácter popular, mas urbano; difere do minhoto, tendo como os de Lisboa e da Madeira, o braço em ressalto. sobre o tampo, com 17 trastos, e a boca sempre redonda, mas mais pequena, como de resto todas as suas dimensões; a sua afinação, segundo Oneyda Alvarenga, é, como na Madeira (e como em certos casos minhotos), o acorde de sol maior invertido; mas Câmara Cascudo informa que também ali se usam afinações várias.

Os autores brasileiros, em geral, Oneyda Alvarenga, Mário de Andrade, Renato Almeida, etc., consideram unanimemente o cavaquinho brasileiro de origem portuguesa, e Câmara Cascudo fala mesmo concretamente, a esse respeito, na ilha da Madeira.

De uma maneira geral portanto, ao instrumento francamente popular, minhoto (e, originariamente, coimbrão), que se toca de rasgado, corresponde o velho tipo de braço raso e com doze trastos; enquanto que aos instrumentos de carácter citadino e burguês, de Lisboa, Algarve e Madeira – portanto menos presos à tradição -, que se toca de pontiado, corresponde o tipo de braço em ressalto, e dezassete trastos, que parece ter sofrido influências desses instrumentos mais evoluídos, violão, guitarra, ou banjolim. O cavaquinho brasileiro, embora popular, é deste último tipo; mas vimos que ele é usado sobretudo pêlos estratos populares urbanos. Esta regra não é porém geral: o braguinha rural da Madeira, acentuadamente popular, é, a despeito disso, morfologicamente idêntico ao urbano.

Finalmente, nas ilhas Hawai existe um instrumento igual ao cavaquinho – o «ukulele» -, que parece, na verdade, ter sido para ali levado pelos portugueses. Como o nosso cavaquinho, o «ukulele» havaiano tem quatro cordas e a mesma forma geral do cavaquinho; certos violeiros fazem-no com o braço em ressalto e dezassete trastos, como a generalidade dos cordofones desta família, e como o cavaquinho de Lisboa, da Madeira e do Brasil; mas há «ukuleles» de fabrico inglês do tipo do cavaquinho minhoto, de braço raso com tampo e apenas 12 trastos. A sua afinação natural é, do grave para o agudo, sol-dó-mi-lá (ou lá-ré-fá sustenido-si, ou ainda ré-sol-si-mi, como indicam certos manuais ingleses). Carlos Santos e Eduardo Pereira referem-se à divulgação do braguinha por todo o mundo, graças ao turismo e ao cinema, e sobretudo à exportação e à emigração dos colonos ilhéus para as Américas, do Norte e do Sul, ilhas Sandwich, etc.; citam mesmo alguns dos primeiros exportadores que, nos princípios deste século, os enviaram, a pedido, para Barbados, Demerara e Trindad.

De facto, o cavaquinho, ou braguinha, foi introduzido em Hawai por um madeirense de nome João Fernandes, nascido na Madeira em 1854, e que foi da sua ilha para Honoluiu no barco à vela «Ravenscrag» num continente de emigrantes – 419 pessoas, incluindo crianças -, com destino às plantações de açúcar, numa viagem pela rota do cabo Hom que demorou quatro meses e vinte e dois dias. Entre esses emigrantes vinham cinco homens que ficaram ligados à história da introdução do cavaquinho em Hawai: dois bons tocadores, o mencionado João Fernandes (que tocava também rajão e viola) e José LUÍS Correia; e três construtores, Manuel Nunes, Augusto Dias, e José do Espírito Santo.

O «Ravenscrag» chega a Honoluiu a 23 de Agosto de 1879, e José Fernandes (segundo um relato feito à revista Paradise of the Pacific, de Janeiro de 1922), ao desembarcar, trazia na mão um braguinha, pertencente a um outro emigrante também passageiro do «Ravenscrag», João Soares da Silva, que porém não sabia tocar e o emprestara a João Fernandes para que este entretivesse os demais companheiros na longa viagem até Hawai. Os hawaianos, quando ouviram João Fernandes tocar o pequeno instrumento, ficaram encantados, e deram-lhe logo o nome de «ukulele», que significa «pulga saltadora», figurando o modo peculiar como é tocado. Depois de instalados na ilha, seguidamente, todos queriam que João Fernandes tocasse, o que ele fazia gostosamente – em danças, festas, serenatas, etc., tendo depois formado um conjunto com Augusto Dias e João LUÍS Correia. Tocou assim para o rei Kalakaua, em especial na festa do seu aniversário, para a rainha Emma e a rainha Liliuokalani, no palácio de Ilakla e no pavilhão de Verão, de lolani, que era um centro de música, dança e cultura.

O «ukulele» toma-se extremamente popular em Honolulu e Manuel Nunes, na fábrica e loja de móveis que abrira na King Street, passou a construir esses instrumentos, que não sabia tocar, mas que passava a João Fernandes para que este tocasse: e as pessoas reuniam-se à porta da sua oficina para o ouvirem. Com o tempo os hawaianos aperceberam-se de que o instrumento não era difícil de tocar, e começaram a comprar os exemplares ali construídos, cujo preço era então de 5 dólares. Esta actividade de Manuel Nunes – que na tradição oral da sua família, desde então radicada em Honolulu, se iniciou logo a seguir à sua chegada – está documentada desde 1884; na mesma altura. Augusto Dias abre, pelo seu lado, loja de fabrico e venda de «ukuleles»; e o mesmo faz José do Espírito Santo em 1888. Estes três primeiros violeiros passaram a utilizar as madeiras locais de kou e koa, com as quais construíram instrumentos de muito boa qualidade.

Manuel Nunes deixou descendentes em Hawai e um seu bisneto, o senhor Leslie Nunes, grande cultor do «ukulele» e autor de um pequeno trabalho sobre as suas origens, e a quem devemos os informes que aqui utilizamos, julga que é o seu bisavô quem está na origem da sua difusão nessas ilhas, e seguidamente nos Estados Unidos. Nunes é o nome de família dos mais famosos construtores madeirenses de instrumentos de corda, nomeadamente Octaviano João Nunes (que ofereceu um braguinha da sua autoria à imperatriz Elizabeth da Áustria, que se encontra no Museu de Viena), e seu sobrinho João Nunes Diabinho». Segundo nos informou um sobrinho deste último o Senhor Bartolomeu de Abreu, nem um nem outro daqueles construtores acompanhou porém os seus conterrâneos no referido movimento emigratório, nem estiveram nunca em Hawai ou nos Estados Unidos. Restaria averiguar se o Senhor Manuel Nunes, que foi para Hawai, e que, pelo que vemos, foi também construtor de cavaquinhos, pertenceria à estirpe dos velhos violeiros Nunes do Funchal.

O cavaquinho existe igualmente em Cabo verde, num formato maior do que o do instrumento em Portugal, com escala em ressalto até à boca, e dezasseis trastos, e ligado a formas tradicionais da música local.

Será o cavaquinho uma espécie que teve outrora carácter de grande generalidade no País e que se foi extinguindo, subsistindo apenas em manchas dispersas de maior ou menor vulto e importância em relação às formas musicais locais? Ou de uma espécie fixada entre nós primordialmente no Minho, donde teria irradiado directamente ou indirectamente para as, ou algumas das, outras partes onde hoje aparece – Coimbra, Lisboa, Algarve, Madeira, Açores, Cabo Verde e Brasil -, encontrando diversa aceitação conforme os casos? Jorge Dias parece inclinar-se para esta segunda hipótese genérica; mas, mais concretamente, considerando o carácter diverso que o instrumento apresenta no Minho e no Algarve, opina que ele foi levado para o Algarve por algarvios de regresso da Madeira ou do Brasil – para onde, de resto, foi por sua vez certamente levado por gente minhota. E julgamos que o mesmo se pode entender em relação ao caso lisboeta.

Desse modo, a partir da província nortenha, o cavaquinho ter-se-ia difundido na Madeira pela via do emigrante minhoto. Longe do seu foco de origem, e por isso menos preso à sua tradição mais castiça, modifica a sua forma por influências de outras espécies ali existentes e mais evoluídas, e às quais ele se teria pouco a pouco associado; e ao mesmo tempo que conserva o seu carácter popular, adquire na cidade do Funchal um novo status mais elevado.

E é assim que ele regressa ao Continente, Algarve e Lisboa, em mãos de gentes dessas áreas que o conhecem ali só sob esse aspecto. O mesmo se pode ter passado com o Brasil, embora, neste caso, sejam também de admitir relações directas entre a Madeira e esse país.

Leme Berthe menciona ainda um outro tipo deste instrumento, que ocorre na Indonésia – o ukélélé, ou kerontjong -, como acompanhante na orquestra que leva o mesmo nome de kerontjong, a par de uma viola grande (guitarre), um violoncelo ou contrabaixo, e um alto (viole). Esta orquestra corresponde a um género musical indonésio que surge nos começos do século XVI, por contacto com a música portuguesa, influenciada, conforme as regiões, pêlos estilos tradicionais, como o gamelan. Na Madeira, além do braguinha, existe outro cordofone da mesma família – o rajão – de feitio igual ao dele e ao da viola, mas de um tamanho intermédio – cerca de 66 cm de comprimento (dos quais 32 na caixa harmónica) por 21 de largura —, com dezassete trastos e, normalmente, cinco cordas, ora todas de «arame» ora com as primeiras e quarta (toeira) de «arame» (N. ° 10 ou 8, e 4 respectivamente), as segundas e terceiras de tripa ou de bordão – afinando, do grave para o agudo, ré-sol-dó (baixo)-mi-lá) ou mi-Ia-ré baixo-fá sustenido-si); instrumento acompanhador, toca-se como o braguinha, rasgando, igualmente com rufos de cima para baixo, dos indicador, médio e anelar da mão direita, alterando com outros, de baixo para cima, do polegar. Carlos Santos e Eduardo Pereira consideram este instrumento de invenção madeirense, imitação do violão, em tamanho menor. Contudo, vimos no Regimento dos Violeiros de Guimarães, de 1719, que aí se construíram «machinhos» de cinco cordas (além de outros de quatro, que correspondem aos actuais), sendo por isso de admitir que tenha havido no continente um tipo maior que corresponderia porventura ao cavaco (mencionado por vários autores), depois desaparecido, e que, levado para a Madeira, ali substitui, tendo certamente modificado o seu tipo originário, no que se refere à forma do braço e número de trastos, por influência certamente do violão, difundido e popularizado nos princípios do século XIX, e que tem essas características. E esta hipótese parece ser reforçada ainda com a consideração da afinação do rajão, idêntica à de outro instrumento espanhol da família das guitarras de cinco cordas – o guitarro andaluz -, antecessor presumível do cavaco – ou, seja, esse machete de cinco cordas do Regimento de 1719. Acresce que a Enciclopédia Universal Espasa alude a um cavaco dos portugueses, que é como um cavaquinho de maiores dimensões; e o referido Senhor Leslie Nunes fala num outro instrumento hawaiano de origem portuguesa – o taro-patch – , como um violão pequeno, de cinco cordas (e em certos casos quatro), que pelas suas dimensões, se relacionaria com o rajão madeirense e que foi difundido naquelas ilhas pelas mesmas pessoas que para lá levaram o braguinha, e na ocasião que atraz relatamos. Em resumo, pois, conheceram-se em Portugal, no século XVIII, «machinhos» grandes, de cinco cordas, que subsistem na Madeira e em Hawai, mas desapareceram aqui (e não se conhecem no Brasil, onde porém existem cavaquinhos pequenos e grandes).

Enfim, em certos casos, aliás pouco frequentes, nomeadamente em Lisboa, um instrumento parecido com o cavaquinho pelo seu formato geral e dimensões, mas com um número superior de cordas (e portanto um braço mais largo), leva também o nome de cavaquinho, embora seja talvez de estirpe e natureza diferente das deste.

Ernesto Veiga de Oliveira
in “Instrumentos Populares Portugueses”
(edição da Fundação Calouste Gulbenkian)

Fonte: Portal do Folclore de Portugal

Imagem: http://www.juliopereira.pt

Amadeu Magalhães – São Gonçalo de Amarante (2.ª parte da música de Júlio Pereira presente no disco “Cavaquinho”)

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